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O Lado Esquerdo dos Blogs ou Aquele Blog Onde Você Sente Vergonha Alheia, Mas Tranquilo

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domingo, 27 de setembro de 2009

Bem, que engraçado é a comunidade de doces de geladeira, não é?

Bem, que engraçado é a comunidade de doces de geladeira, não é?
Pense bem: goiabadas, quindins, tortinhas de morango, em entrelace cordial com os doces de, digamos assim, menos respeito, como leites condençados e coberturas de chocolate; estes, todos utensílios para um doce de maior pompa; e que, apesar das desavenças, se respeitavam e se aturavam.
Mas em um dia, domingo, para contemplar maior exatidão a você, leitor, houve a desgraça: o limão, em sua sesta habitual da tarde, foi surrupiado e impiedosamente espremido no leite, o Senhor da Geladeira. Coalhado e sem forças, o Leite gritou em seu socorro.
Os ovos choraram claras em neve; a margarina ficou rançosa, espavorida pelos lácteos gemidos; os morangos mofaram, ali mesmo na caixa, herméticos e apertados; o arroz grudou na penela; e não me atrevo a pautar o acontecido com queijo: desgraça.
Quem houvera, daquela forma impiedosa e violenta, atentado contra o pudor do Longa Vida - que, em agonizantes delírios, lembrava com tristeza o dia em que fora retirado da caixa e fervido - , e produzido tão horroroso iogurte?
Os doces de grande imponência perderam sua doçura natural e culparam a réles, os doces subalternos, pelo coágulo branco que se tornou o Leite, querido de todos.
Como forma de imposição, os doces menores levantaram placas em desesperado protesto; gritaram frases de efeito e, até mesmo, cogitaram revolução, como ato alucinado contra a opressão a que estavam sendo submetidos.
Sem mais forças, os doces opressos decidiram que era hora de partir: o ambiente esquentara.
A Geladeira, casa querida, foi deixada logo pela manhã do dia seguinte. Suados e a ponto de perder a validade, encontraram abrigo ao lado de colossais camadas de gelo, no Freezer, a metros de distância do Refrigerador.
Na Geladeira, o leite se encontrava em bom estado, apesar de tudo. Sobrevivera. E, com poucas forças, relatou o acontecido: O limão, dormindo, viera rolando, sonâmbulo, e, num ato de auto-flagelo, espremera-se, chovendo na cabeça do Leite. O limão, já seco e sem caldo, foi desculpado, e a culpa insuflou os poros de todos naquele frio ambiente que se tornara aquela morada, após o ato criminoso que cometeram todos, culpando os doces de baixo escalão; até as verduras choraram, suando a gaveta em que descançavam.
Os respeitáveis doces, já não tão respeitados, sairam à procura de seus colegas, mas não os acharam, e apodreceram no inóspito calor em que estavam. Uma semana depois, todos foram comidos, e Leite, infelizmente, jogado fora, agora, desconjurando com mais afinco ainda o fatídico dia em que fora retirado de sua caixa.
E quanto aos doces congelados? Estes foram encontrados e devolvidos ao Refrigeirador, agora, aclamados como heróis, que lutaram por uma causa; que sofreram atrocidades e não se rebaixaram àqueles que não os respeitavam.
Foram eternamente lembrados.
Bem, que engraçado é a comunidade de doces de geladeira, não é?

Sentimentos escolhidos e recolhidos. Escolha ver por este ângulo.

Intervendo; escolha ver por este ângulo.

Ver a mesma coisa de forma, sentimento diferente, causa sempre novas sensações.
Pensar até mesmo que o meu dia e o seu (leitor), acabarão por mediar o que se escreve e se lê; como se escreve, como se lê.
Até mesmo o silêncio, ontem e hoje, pode ser ouvido diferentemente, dando-lhe novo corpo, forma.
Ou mesmo o que aqui está escrito, se alinhe em você; faça com que você estranhe, se aperceba, se lembre (tudo sem complemento, porque é de você e sua vida que vêm o resto), se deite na pequena cadeira que o conforta, e se sente na cama que o espera.
O que lê agora, fará com que veja tudo com o passado que o segue; com o sono que o fez dormir; ou com que esqueça tudo isso, pois hoje o seu cansasso, o seu medo, a sua crítica, ou meu fraco poder de me expressar, farão com que vire os olhos para o lado oposto.

Tudo intervém; você é tudo o que também intervém.
Mediações.

quinta-feira, 10 de setembro de 2009

Poesia, tristeza e felicidade.

Em uma conversa sobre poemas e poesia (esta no sentido de sentimento, lirismo, retórica), tentamos dar nossas ideias sobre este assunto, uma amiga e eu. Acabamos chegando a pensamentos oposto sobre a matéria da poesia: para mim, algo que alcançasse uma tristeza, uma profundeza do ser (ou algo assim), e para ela, algo que também pudesse expressar alegria, além de levar alegria.

Perdoem-me novamente o romantismo e o poeticismo, mas a mim me ajuda muito o treino com as palavras.

Pensei sobre isso e fiz uma tréplica:

A poesia, ao meu ver, são segredos da alma, que assopramos com a caneta no pé do papel. Quem o ouve, estranhando a veracidade da matéria poética, retira das palavras o sentimento escuso do segredo, e não sente a necessidade de traí-lo (ao papel? que inútil o seria!), derramá-lo para outros.
Na folha suja, descaracteriza-se o segredo, sobrando apenas, para o leitor, aquele arroubo de espírito e atrevimento, que somente a intimidade alheia lhe traz.
E quanto ao sentimento de solenidade (amor, amizade, família...) e tristeza da poesia, volto à ideia de segredo: segregar a própria alegria? a troco de quê?
Quem parar para racionalizar um sentimento de excitação e feliz enlevo, perde a chance de gritar.

Aos silêncios da alma, que sobre o hiprócrito silêncio do papel; que mudemos a calada felicidade.

Dedicado à Gabriela cravo e canela.