MVIzquierdo

O Lado Esquerdo dos Blogs ou Aquele Blog Onde Você Sente Vergonha Alheia, Mas Tranquilo

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sexta-feira, 23 de outubro de 2009

Enciclopédia? O que é isso? Que tempos estamos.

E a enciclopédia volume I olha para o computador do outro lado da sala, e diz para o volume II:
-Hei, acorda!
-O que foi? fala o volume II, sonolento.
-Olha para o garoto no PC.
-O que tem, Vol I?
-Tá dando pau!
-E daí? já deu outras vezes. Ele vai para o notebook, depois.
-Eu sei, mas olha para a pesquisa dele! "América"! "América"!
-O que tem isso, Vol I?
-Matéria que eu domino! Tem letra "A", Vol II.
-Aposto que está mais atualizado na internet. Convenhamos, estamos velhos.
-Mas a pesquisa é colonização.
-Tudo bem, tanto faz.
-Tanto faz? Ele pode pesquizar por "colonização".
-O que tem isso?
-Quem aqui domina a letra "C", por acaso, Vol II?
-Ó meu Deus, sou eu! você tem razão! Precisamos fazer com que o moleque olhe para nós! Não acredito, eu posso ser acessado, novamente.
-Acessado? traidor... Olha para o garoto, levantou da cadeira. Está olhando para nós, Vol II! Está vindo!
-Treme aí, Vol I, você é América!
O volume I e II começam a espantar toda a poeira que os guardou durante os anos. O garoto olha, entrigado, para o balanço das Enciclopédias.
-Ele percebeu, Vol II!
O garoto pega a o Volume I e se vai.
-Hei, Vol III, você viu a sorte do Vol I?
-Poisé! Quanto tempo que eu não via uma coisa dessas acontecendo, disse o volume III.
O garoto volta, depis de um tempo, com o volume I, e o guarda em seu lugar de costume.
-Falaí, Vol I, como foi a experiência. Há tanto tempo que isso não acontecia!
-Tem razão, Vol II, mas não foi tão bom, assim.
-Ora! por que não?
-Ah! o garoto vai entregar uma xerox, minha, Vol II!! Uma xerox minha! E ainda por cima escreveu no topo da folha: tirado do site...
-Nossa. Que horror. Que tempos estamos!
-Nem me fale. O garoto falou para a mãe dele que tinha vergonha de ter tirado o trabalho de um livro.
-Que tempos estamos.
-E sabe qual é o pior, Vol II?
-Qual, Vol I?
-Na capa, o maldito esqueceu do acento de "América"! Do acento! E olha que de acentuação eu entendo!
-Que tempos estamos.

sexta-feira, 16 de outubro de 2009

Palavra-escuma.

"Andei perdido. Cheguei agora; mas encontrei o caminho sozinho.

"Não se intusiasme! deixe o sentido usual das coisas para quem não tem flexibilidade bastante para transbordar seus próprios desejos.
Expandir é se conhecer, e deixar os outros confusos (confusão divertida, erotizada: mar lascivo esse que embaralha as palavras. Quem bebe dessa água, sente mais sede)."

terça-feira, 13 de outubro de 2009

Aparição infantil.

No cemitério antigo, dos índios da Amazônia, o jovem indiozinho deixou um recado do Cacique: "estão todos convocados para festa dos mortos".
O sol já dormia e o dia ficou triste. O canto dos índios se fazia soar; a merencória cadência se unia às estrelas, e o saudosimo inundava a taba que os abrigava.
As mulheres dançavam, ao fundo, os passos de uma glória antiga; os homens fumavam em contorno, orando para aqueles que já se foram, virem às suas presenças, e guiarem aqueles que ainda podiam fumar pelos mortos.
Após o canto, o silêncio fez audível os sons dos insetos, e a voz dos espíritos pôde ser ouvida.
Quem apareceu era uma criança, que nada tinha de índio: era louro de olhos azuis. Os homens esgasgavam com a fumaça e se espantavam com o espírito. Criança?
O que Tupã, o deus dos índios, dizia com aquilo?
Esperaram para ver se falava. Todos olhavam para a cândida aparição, ansiosos por palavra.
O Cacique, o mais velho da tribo, com sua experiência e vivência espiritual, atinou-se de que somente criança entederia criança! Chamem o indiozinho!
Com olhos engrandecidos de medo e curiosidade, o pequenino, que ainda nem homem e caçador era, viu que os grandes da Taba pediam por seu socorro; o que faria ele, assim tão pequeno?
Trazido pelas mãos do pai, o indiozinho foi levado à roda dos homens, e posto diante da aparição de cabelos de sol. Os meninos olharam um para o outro, se estudaram; gritaram os dois palavras irreconhecíveis, língua essa talvez própria da puerilidade. O lourinho olhou para o indiozinho, sorrio e se foi, evaporou junto com a fumaça dos cigarros.
Os homens, impressionados com o poder da criança, puxaram o garoto pelos cabelos, trazendo-o para o meio da roda, e perguntaram:
- E então, o que era?
- Era um recado para as crianças.
- Qual? Diziam em coro.
- Veio desejar feliz dia das crianças para nós.
- Oh, em coro.
O menino foi puxado, pelos cabelos, devolta à mãe.
E o Cacique disse aos companheiros:
- Da próxima vez, quem vai entregar o recado sou eu.